Muita gente diz que o voto da direita no Brasil é o voto do evangélico. Os números do IBGE e do TSE mostram que essa história é verdadeira só em parte. Ela explica onde a direita já era forte. Mas não explica onde a direita mais cresceu de 2022 para 2026.
Em resumo
- Em 2022, quanto mais evangélicos havia num município, mais votos Jair Bolsonaro teve: de 32% nos municípios com poucos evangélicos a 50% nos que têm muitos.
- Em 2026, o crescimento foi ao contrário: +5,2 pontos onde há poucos evangélicos e só +3,1 onde há muitos.
- Nas áreas mais pobres, a direita cresceu +4,8 pontos, quase o dobro das áreas mais ricas (+2,7). A vantagem de Lula entre os mais pobres caiu de 46 para 37 pontos.
1. Há mais evangélicos entre os mais pobres
O Censo 2022 mostra que os evangélicos estão mais presentes entre as famílias de menor renda. Dividindo os brasileiros em cinco faixas de renda com o mesmo número de pessoas, de cada 100 pessoas das duas faixas mais pobres, cerca de 30 são evangélicas. Na faixa mais rica, são 20.

2. Em 2022, a direita já era forte onde há mais evangélicos
Separando os 5.570 municípios em cinco grupos, do que tem menos ao que tem mais evangélicos (todos com cerca de 41 milhões de habitantes), o padrão de 2022 é claro como uma escada. Onde os evangélicos eram 15% da população, Jair Bolsonaro teve 32,1% dos votos válidos no 1º turno. Onde eram 39%, teve 50,4%. Foi essa base, construída antes, que deu à direita a força que ela tem hoje nos municípios mais evangélicos.


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3. Em 2026, o crescimento foi maior onde há MENOS evangélicos
Aqui a história muda. De 2022 para 2026, o voto bolsonarista subiu em quase todo o país, mas não subiu mais nos municípios mais evangélicos. Foi o contrário: +5,2 pontos no grupo com poucos evangélicos, +4,4 no segundo grupo e só cerca de +3 pontos nos três grupos com mais evangélicos.

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Os mapas lado a lado mostram a mesma coisa. Nos municípios com muitos evangélicos (roxo forte), só 11 em cada 100 moradores vivem onde Bolsonaro cresceu mais de 6 pontos (laranja forte). Nos municípios com poucos evangélicos, são 35 em cada 100. A conta também vale comparando só municípios do mesmo estado e com renda parecida.

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A explicação mais simples: onde há muitos evangélicos, a direita já tinha muito voto em 2022 e sobrava pouco para conquistar. O voto novo de 2026 veio, sobretudo, de lugares onde os evangélicos são minoria.
4. Nas áreas mais pobres, a direita cresceu mais que nas ricas
A outra peça é a renda. Ordenando os municípios pela renda média do Censo 2022, em cinco grupos de cerca de 41 milhões de habitantes, o crescimento da direita foi maior no grupo mais pobre (+4,8 pontos) e foi diminuindo até o grupo mais rico (+2,7 pontos).

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Nos 2.256 municípios mais pobres, onde vivem cerca de 41 milhões de pessoas, Lula ainda vence com folga: 66,1% contra 29,4% em 2026. Mas a vantagem dele caiu de 45,6 para 36,7 pontos em quatro anos. O número de municípios desse grupo em que o candidato bolsonarista foi o mais votado quase dobrou, de 66 para 125.

O mesmo aparece olhando escola por escola. No mapa nacional por local de votação, entre os locais das áreas mais pobres do país, 742 passaram de Lula para Bolsonaro entre 2022 e 2026, e só 59 fizeram o caminho inverso.
O que os números não dizem
Esta é uma análise por município, não por eleitor. O Censo não pergunta em quem a pessoa votou, e o TSE não registra religião nem renda. Por isso, os dados mostram em que lugares cada voto foi mais forte ou mais cresceu, e não como votou cada evangélico ou cada pessoa pobre.
Conclusão
O voto evangélico ajuda a explicar a força que a direita já tinha em 2022. O crescimento de 2026, porém, veio de outro lugar: dos municípios onde os evangélicos são minoria e das áreas mais pobres do país, onde Lula continua à frente, mas por uma distância bem menor.
