
Durante muito tempo, Belo Horizonte foi descrita como uma capital moderada, de centro, um “termômetro” do Brasil que oscilaria conforme o humor nacional. Os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contam outra história. Nas duas últimas eleições presidenciais, a capital mineira deu vitória ao candidato da família Bolsonaro, com folga, e o fez em quase todo o seu território. Quando se olha para cada um dos 446 locais de votação da cidade, a conclusão é difícil de evitar: hoje, Belo Horizonte é uma cidade de direita.
Duas eleições, o mesmo resultado
No segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro obteve 54,3% dos votos válidos em Belo Horizonte, contra 45,7% de Lula. Venceu em 357 dos 435 locais de votação da cidade. No primeiro turno daquele ano, já havia ficado à frente: 46,6% contra 42,5%.
Em 2026, o sobrenome mudou de candidato, mas não de lado. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 690.960 votos em BH (48,3% dos válidos), contra 592.037 de Lula (41,4%) — uma diferença de 98.923 votos. Foi uma vitória mais larga do que a obtida no país como um todo, onde Flávio Bolsonaro teve 47,03% e Lula 45,16%. Em outras palavras: Belo Horizonte é mais bolsonarista do que o Brasil.
Uma maioria que vai além de um nome
O voto conservador em BH não se resume ao candidato do bolsonarismo. Somando os quatro candidatos do campo da direita no primeiro turno de 2026 — Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema —, chega-se a 54,6% dos votos válidos da capital. Ou seja, já no primeiro turno, mais da metade do eleitorado belo-horizontino escolheu um candidato de direita. Essa maioria absoluta do bloco se repete em 366 dos 446 locais de votação.
Um mapa quase todo verde
A força desse voto aparece com clareza no mapa. Flávio Bolsonaro venceu em 347 dos 446 locais de votação (78%); Lula, em 97; houve dois empates. Mais significativo ainda: 82% de todos os votos válidos da cidade foram depositados em locais onde Bolsonaro saiu vitorioso. Agregando os locais nas 79 Unidades de Planejamento da prefeitura, o candidato venceu em 63 delas — eram 54 no primeiro turno de 2022.

Onde a esquerda ainda vence é a exceção que confirma a regra. As vitórias de Lula se concentram em um núcleo central e pericentral — Centro, Barro Preto, Santa Efigênia, Floresta, Santa Tereza, Serra — e, no agregado por Unidade de Planejamento, em alguns aglomerados, como Taquaril, Morro das Pedras, Cafezal, Prado Lopes e Barragem. São ilhas vermelhas em um mar verde.

A cidade se moveu para a direita
Mais do que um retrato, os números mostram uma tendência. Comparando os mesmos eleitores — os votos de 2022 foram somados pelas mesmas seções eleitorais que votaram em cada local em 2026 —, a participação do candidato Bolsonaro cresceu em 375 dos 434 locais comparáveis. Na cidade como um todo, passou de 46,6% para 48,3% (+1,7 ponto percentual), enquanto Lula recuou de 42,5% para 41,4%.
A troca de lado também é assimétrica. Em 62 locais de votação, Lula havia vencido em 2022 e foi derrotado em 2026; esses locais reuniram 196.021 votos válidos neste ano. O movimento inverso — Bolsonaro vencer em 2022 e perder em 2026 — ocorreu em apenas 10 locais, a maioria na região central e pericentral (Floresta/Santa Tereza, Barro Preto, Santo Antônio, Francisco Sales). A virada a favor da direita ocorreu sobretudo nas regiões periféricas do Norte, Nordeste, Noroeste, Venda Nova e Barreiro: Lindéia, Jatobá, Abílio Machado, Ouro Preto, Belmonte, Ribeiro de Abreu, Jardim Felicidade, entre outras.

Os bairros populares também mudaram de lado
Talvez a mudança mais reveladora esteja nos bairros populares. Nas 16 Unidades de Planejamento de menor renda média da cidade, Lula ainda estava à frente em 2022, com 47,8% contra 43,2% (média ponderada pela população). Em 2026 a ordem se inverteu: 46,4% para Flávio Bolsonaro e 43,9% para Lula. Entre essas UPs de menor renda, o número das que deram vitória ao candidato bolsonarista dobrou, de 6 para 12. Não se trata de dizer que a periferia “trocou de lado” de uma vez, mas de reconhecer, com respeito, um fato novo: o eleitor de menor renda de BH, que por muito tempo foi tratado como base natural da esquerda, hoje também escolhe a direita.
A regional Venda Nova é o melhor exemplo. Foi lá que Flávio Bolsonaro teve sua maior votação entre as regionais da cidade: 49,7% dos votos válidos, contra 40,0% de Lula. Em 2022, nos mesmos locais, o placar havia sido de 47,6% a 42,7%. Flávio venceu em 41 dos 43 locais de votação da regional e em todas as suas oito UPs, de Céu Azul a Serra Verde e São João Batista. O Barreiro foi a regional em que o voto bolsonarista mais cresceu: passou de 46,0% para 48,4%, e o candidato venceu em 37 dos 42 locais.
O mesmo movimento aparece nas vilas e favelas. Nas 14 UPs em que pelo menos 30% dos moradores vivem nesses territórios, o voto bolsonarista cresceu em todas, entre 1,2 e 4,8 pontos percentuais. Em 2022, Bolsonaro superava Lula em apenas 4 delas; em 2026, em 8. Jardim Felicidade, Capitão Eduardo, Jatobá e Jardim Montanhês passaram a votar majoritariamente no candidato da direita. Nos grandes aglomerados — Serra (Barragem e Cafezal), Taquaril, Morro das Pedras e Prado Lopes —, Lula ainda vence, mas por margens bem menores: no Taquaril, a vantagem caiu de 13,3 para 6,7 pontos; na Barragem, de 30,6 para 22,6.
Não é só o Belvedere
Seria cômodo atribuir esse resultado aos bairros de alta renda. É verdade que o voto bolsonarista atinge seus picos ali: no Colégio Edna Roriz, no Belvedere, Flávio Bolsonaro obteve 71,4% dos votos válidos. Como se viu acima, porém, a direita belo-horizontina é também — e cada vez mais — popular e periférica. O mapa de 2026 não opõe uma elite conservadora a uma periferia progressista: mostra uma cidade majoritariamente conservadora em quase todas as suas classes e regiões, com resistência de esquerda restrita ao centro e a poucos territórios.
O que os números não dizem
Há limites que devem ser reconhecidos. Primeiro, a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi por maioria relativa: 48,3% não é maioria absoluta, e o segundo turno ainda está por vir. Segundo, a classificação dos candidatos em “campo da direita” é uma leitura política deste artigo, e não uma categoria oficial; Augusto Cury, por exemplo, não foi incluído no bloco. Terceiro, votar em um candidato de direita não significa, necessariamente, aderir a todo o seu programa. Ainda assim, a combinação de vitórias consecutivas, de uma maioria do bloco conservador já no primeiro turno e de um avanço espalhado pelo território autoriza a afirmação: eleitoralmente, Belo Horizonte é hoje uma cidade de direita.
Conclusão
A capital mineira não é mais o “meio-termo” de que se costumava falar. Em 2022 e em 2026, o eleitorado de BH escolheu a direita, venceu com mais folga do que o país e espalhou essa escolha por quase todo o mapa da cidade, das mansões do Belvedere às periferias do Barreiro e de Venda Nova. Quem quiser entender a política belo-horizontina daqui para a frente precisa partir desse dado: a direita não é uma força entre outras na cidade — é a força predominante.