Eleições presidenciais · Belo Horizonte · 2022 e 2026

Belo Horizonte é de direita

As urnas de 2022 e do 1º turno de 2026, local por local, mostram uma capital que vota consistentemente no campo conservador — e que se moveu ainda mais nessa direção

Por Sandro Laudares
48,3%dos votos válidos para Flávio Bolsonaro no 1º turno de 2026, contra 41,4% de Lula
347 de 446locais de votação com vitória do candidato bolsonarista
63 de 79Unidades de Planejamento vencidas, contra 54 em 2022
54,6%dos votos válidos somados pelos candidatos da direita

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Mapa de pizzas do 1º turno de 2026

1º turno de 2026, por local de votação

Uma pizza por local, com tamanho proporcional aos votos válidos. Filtre os locais onde Bolsonaro ou Lula venceu.

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Mapa comparativo 2022 × 2026

Comparativo 2022 × 2026

Barras de 2022 e 2026 para Bolsonaro, Lula e outros. Veja onde cada candidato manteve ou perdeu a liderança.

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O artigo

Variação do percentual de votos válidos no candidato bolsonarista entre o 1º turno de 2022 e o 1º turno de 2026, em pontos percentuais, por UP
Figura 1 — Variação do percentual de votos válidos no candidato bolsonarista entre o 1º turno de 2022 e o 1º turno de 2026, em pontos percentuais, por UP. Fonte: TSE; PBH; IBGE. Elaboração própria.

Durante muito tempo, Belo Horizonte foi descrita como uma capital moderada, de centro, um “termômetro” do Brasil que oscilaria conforme o humor nacional. Os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contam outra história. Nas duas últimas eleições presidenciais, a capital mineira deu vitória ao candidato da família Bolsonaro, com folga, e o fez em quase todo o seu território. Quando se olha para cada um dos 446 locais de votação da cidade, a conclusão é difícil de evitar: hoje, Belo Horizonte é uma cidade de direita.

Duas eleições, o mesmo resultado

No segundo turno de 2022, Jair Bolsonaro obteve 54,3% dos votos válidos em Belo Horizonte, contra 45,7% de Lula. Venceu em 357 dos 435 locais de votação da cidade. No primeiro turno daquele ano, já havia ficado à frente: 46,6% contra 42,5%.

Em 2026, o sobrenome mudou de candidato, mas não de lado. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro recebeu 690.960 votos em BH (48,3% dos válidos), contra 592.037 de Lula (41,4%) — uma diferença de 98.923 votos. Foi uma vitória mais larga do que a obtida no país como um todo, onde Flávio Bolsonaro teve 47,03% e Lula 45,16%. Em outras palavras: Belo Horizonte é mais bolsonarista do que o Brasil.

Uma maioria que vai além de um nome

O voto conservador em BH não se resume ao candidato do bolsonarismo. Somando os quatro candidatos do campo da direita no primeiro turno de 2026 — Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Ronaldo Caiado e Romeu Zema —, chega-se a 54,6% dos votos válidos da capital. Ou seja, já no primeiro turno, mais da metade do eleitorado belo-horizontino escolheu um candidato de direita. Essa maioria absoluta do bloco se repete em 366 dos 446 locais de votação.

Um mapa quase todo verde

A força desse voto aparece com clareza no mapa. Flávio Bolsonaro venceu em 347 dos 446 locais de votação (78%); Lula, em 97; houve dois empates. Mais significativo ainda: 82% de todos os votos válidos da cidade foram depositados em locais onde Bolsonaro saiu vitorioso. Agregando os locais nas 79 Unidades de Planejamento da prefeitura, o candidato venceu em 63 delas — eram 54 no primeiro turno de 2022.

1º turno de 2026 por local de votação
Figura 2 — 1º turno de 2026 por local de votação. Verde: Flávio Bolsonaro; vermelho: Lula; laranja: demais candidatos. A área de cada pizza é proporcional aos votos válidos do local. Fonte: TSE; elaboração própria. Disponível em: https://geografia.lat/BHdireita/ Abrir o mapa de 2026 →

Onde a esquerda ainda vence é a exceção que confirma a regra. As vitórias de Lula se concentram em um núcleo central e pericentral — Centro, Barro Preto, Santa Efigênia, Floresta, Santa Tereza, Serra — e, no agregado por Unidade de Planejamento, em alguns aglomerados, como Taquaril, Morro das Pedras, Cafezal, Prado Lopes e Barragem. São ilhas vermelhas em um mar verde.

Os 97 locais de votação onde Lula venceu no 1º turno de 2026
Figura 3 — Os 97 locais de votação onde Lula venceu no 1º turno de 2026. Fonte: TSE; elaboração própria. Disponível em: https://geografia.lat/BHdireita/ Abrir o mapa: locais onde Lula venceu →

A cidade se moveu para a direita

Mais do que um retrato, os números mostram uma tendência. Comparando os mesmos eleitores — os votos de 2022 foram somados pelas mesmas seções eleitorais que votaram em cada local em 2026 —, a participação do candidato Bolsonaro cresceu em 375 dos 434 locais comparáveis. Na cidade como um todo, passou de 46,6% para 48,3% (+1,7 ponto percentual), enquanto Lula recuou de 42,5% para 41,4%.

A troca de lado também é assimétrica. Em 62 locais de votação, Lula havia vencido em 2022 e foi derrotado em 2026; esses locais reuniram 196.021 votos válidos neste ano. O movimento inverso — Bolsonaro vencer em 2022 e perder em 2026 — ocorreu em apenas 10 locais, a maioria na região central e pericentral (Floresta/Santa Tereza, Barro Preto, Santo Antônio, Francisco Sales). A virada a favor da direita ocorreu sobretudo nas regiões periféricas do Norte, Nordeste, Noroeste, Venda Nova e Barreiro: Lindéia, Jatobá, Abílio Machado, Ouro Preto, Belmonte, Ribeiro de Abreu, Jardim Felicidade, entre outras.

Os 62 locais onde Lula venceu em 2022 e perdeu em 2026 (1º turno)
Figura 4 — Os 62 locais onde Lula venceu em 2022 e perdeu em 2026 (1º turno). Barra clara: 2022; barra escura: 2026; altura em % dos votos válidos. Fonte: TSE; elaboração própria. Disponível em: https://geografia.lat/BHdireita/ Abrir o mapa: Lula venceu em 2022 e perdeu em 2026 →

Os bairros populares também mudaram de lado

Talvez a mudança mais reveladora esteja nos bairros populares. Nas 16 Unidades de Planejamento de menor renda média da cidade, Lula ainda estava à frente em 2022, com 47,8% contra 43,2% (média ponderada pela população). Em 2026 a ordem se inverteu: 46,4% para Flávio Bolsonaro e 43,9% para Lula. Entre essas UPs de menor renda, o número das que deram vitória ao candidato bolsonarista dobrou, de 6 para 12. Não se trata de dizer que a periferia “trocou de lado” de uma vez, mas de reconhecer, com respeito, um fato novo: o eleitor de menor renda de BH, que por muito tempo foi tratado como base natural da esquerda, hoje também escolhe a direita.

A regional Venda Nova é o melhor exemplo. Foi lá que Flávio Bolsonaro teve sua maior votação entre as regionais da cidade: 49,7% dos votos válidos, contra 40,0% de Lula. Em 2022, nos mesmos locais, o placar havia sido de 47,6% a 42,7%. Flávio venceu em 41 dos 43 locais de votação da regional e em todas as suas oito UPs, de Céu Azul a Serra Verde e São João Batista. O Barreiro foi a regional em que o voto bolsonarista mais cresceu: passou de 46,0% para 48,4%, e o candidato venceu em 37 dos 42 locais.

O mesmo movimento aparece nas vilas e favelas. Nas 14 UPs em que pelo menos 30% dos moradores vivem nesses territórios, o voto bolsonarista cresceu em todas, entre 1,2 e 4,8 pontos percentuais. Em 2022, Bolsonaro superava Lula em apenas 4 delas; em 2026, em 8. Jardim Felicidade, Capitão Eduardo, Jatobá e Jardim Montanhês passaram a votar majoritariamente no candidato da direita. Nos grandes aglomerados — Serra (Barragem e Cafezal), Taquaril, Morro das Pedras e Prado Lopes —, Lula ainda vence, mas por margens bem menores: no Taquaril, a vantagem caiu de 13,3 para 6,7 pontos; na Barragem, de 30,6 para 22,6.

Não é só o Belvedere

Seria cômodo atribuir esse resultado aos bairros de alta renda. É verdade que o voto bolsonarista atinge seus picos ali: no Colégio Edna Roriz, no Belvedere, Flávio Bolsonaro obteve 71,4% dos votos válidos. Como se viu acima, porém, a direita belo-horizontina é também — e cada vez mais — popular e periférica. O mapa de 2026 não opõe uma elite conservadora a uma periferia progressista: mostra uma cidade majoritariamente conservadora em quase todas as suas classes e regiões, com resistência de esquerda restrita ao centro e a poucos territórios.

O que os números não dizem

Há limites que devem ser reconhecidos. Primeiro, a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno foi por maioria relativa: 48,3% não é maioria absoluta, e o segundo turno ainda está por vir. Segundo, a classificação dos candidatos em “campo da direita” é uma leitura política deste artigo, e não uma categoria oficial; Augusto Cury, por exemplo, não foi incluído no bloco. Terceiro, votar em um candidato de direita não significa, necessariamente, aderir a todo o seu programa. Ainda assim, a combinação de vitórias consecutivas, de uma maioria do bloco conservador já no primeiro turno e de um avanço espalhado pelo território autoriza a afirmação: eleitoralmente, Belo Horizonte é hoje uma cidade de direita.

Conclusão

A capital mineira não é mais o “meio-termo” de que se costumava falar. Em 2022 e em 2026, o eleitorado de BH escolheu a direita, venceu com mais folga do que o país e espalhou essa escolha por quase todo o mapa da cidade, das mansões do Belvedere às periferias do Barreiro e de Venda Nova. Quem quiser entender a política belo-horizontina daqui para a frente precisa partir desse dado: a direita não é uma força entre outras na cidade — é a força predominante.

Veja os dados no mapa

Mapa de 2026Comparativo 2022 × 2026